BOLO DE CHOCOLATE
Eu tinha 14 anos quando comi o primeiro pedaço de bolo de
chocolate, me lembro como se fosse ontem, ou quem sabe hoje mais cedo. Estava
sentada na mesa de jantar da cozinha, de cabeça baixa, esperando mamãe chegar do serviço para irmos ao Parque de Flowpers. De repente em um salto rápido,
vovó entrou pela porta da cozinha com os dois braços estendidos e segurando um
bolo enorme de chocolate. Ele era formado por 3 camadas de massa recheadas
de chocolate entre elas.
Vovó Ducy sempre preparava aos fins de semana e me oferecia,
mas nunca aceitei porque me falaram um dia que chocolate causava espinhas e
acnes no rosto, e desde criança sempre fui vaidosa. Mas aquele bolo era
diferente, tinha textura e brilho únicos em relação aos outros que ela já havia
feito. Confesso que nessa hora minha barriga “roncou” e comecei a salivar.
- Oi, minha netinha. Você por aqui? Não era para estar com sua mãe? – Vovó colocou o bolo sobre a mesa e o ajustou deixando tudo bonitinho
como se estivesse aguardando chegar a visita de alguém.
- Sim. Estou a esperando. E esse bolo, vó? É
para alguém em especial? Parece tão diferente dos outros que a senhora fez, deu até vontade de experimentar – dei uma risada brincalhona e tremula enquanto
arrumava uma mecha do cabelo atrás da orelha.
- Você, Vitória? Que engraçado, nunca comeste bolo de
chocolate... e olha que esse é meu cargo chefe. Até me surpreende ouvir isso de ti.
Em silêncio, vovó Ducy andou em direção ao armário e tirou
dois pratinhos pequenos e duas xícaras e colocou sobre a mesa. Logo em seguida,
andou até o batente da cozinha americana e pegou uma garrafa de café que
acabara de preparar. Puxou uma cadeira do meu lado e sentou.
- E então, minha filha... servida?
- Não, vó. Obrigada... mas eu tenho medo de comer algo com
chocolate e acabar nascendo espinhas horríveis na minha cara. Mas confesso que
esse bolo está maravilhoso de lindo e quero muito experimentar, apesar de que
nunca comi antes e....
- Calma! Primeiro respire para falar e segundo me diga: o
que seu coração está mandando? – Vovó pegou uma faca e começou a cortar o bolo.
Nesse momento o recheio escorregou como um vulcão em erupção. NOSSA QUE LINDO!
Ver aquele chocolate escorrendo lentamente me faz delirar de vontade de comer
aquilo.
- Éh, meu coração? Meu coração diz que devo comer sem medo,
mas minha mente... ai, não sei o que faço. – Já estava começando a ficar
confusa.
- Meu amor, nós agimos de duas formas: pela razão e pela
emoção. Escolha uma delas e decida se você quer comer uma fatia de bolo de
chocolate da sua avó. – ela então cortou um pedaço do bolo, já no seu
prato, com um garfo e levou a sua boca, mastigando lentamente.
Fiquei curiosa para saber o sabor do bolo e então decidi
agir pela emoção e ouvir o coração. Vou comer do bolo SIM! Peguei uma
faca e cortei um pedaço e coloquei no prato. Vovó Ducy soltou um sorriso
irônico, porém contente por ter conseguido finalmente me fazer comer chocolate. Comecei a garfar aquela fatia e coloquei na boca.... foi uma explosão
de sabores e sentimentos. Parece que aquele bolo falava comigo a cada mastigada
que dava.
- Nossa, vó. Que delicia, se eu soubesse que isso fosse tão
gostoso, não teria me restrito a tanto tempo.
- Claro, minha neta. Chocolate é vida! Por isso sempre faço nos finais de semana.
Meu telefone tocou e era um SMS de mamãe cancelando nosso
encontro da noite porque ela tinha se ocupado no serviço e sairia tarde. Como
não tinha muitos amigos, me despedi de vovó e fui para o quarto trocar de
roupa. Me deitei na cama e comecei a pensar no quão doido são as coisas, deixar
de comer um pedaço de bolo por medo de surgir uma espinha. Claro que uma fatia
só não faria efeito, seria uma probabilidade de 1 para 1 milhão de acontecer.
Me deitei na cama, desliguei a luz do abaju e dormi como um anjo.
No dia seguinte, acordei era 08h00. Fui ao banheiro lavar o
rosto e quando olhei para o espelho, estava lá a famosa espinha do olho amarelo.
Se forçar um pouco a imaginação, parecia que ela estava segurando uma placa
enorme dizendo “Bom dia, Vitória”. Eu dei um grito super alto, devo ter
acordado os vizinhos. Vovó Ducy correu para o quarto assustada.
- O que foi, Vitória? O que aconteceu? Está tudo bem? – ela foi
em direção ao banheiro e seu rosto estava amaçado do travesseiro e aposto que
seu coração estava a 120 Bpm.
- Vó, nasceu a espinha, vó... Nasceu. – Eu estava
desesperada – Maldita hora que fui ouvir a voz da emoção. Maldita hora!!
Vovó respirou fundo, com a mão na cabeça, aliviada de saber
que não era nada de grave. Então me abraçou, enquanto eu chorava, e disse bem
baixinho no meu ouvido:
- Você aprendeu da melhor forma que as vezes não devemos
acreditar no nosso coração. O coração também é vagabundo!
- Marcus Oween -
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